Thursday, September 14, 2006

Crónicas da vida de casado.




Por Luis Miguel Luz



Presumo que todas as pessoas que aqui vão escrever comecem mais ou menos pelo mesmo, ou seja, que aceitaram este projecto porque isto e aquilo, que desejam que o mesmo tenha sucesso, que agradecem a oportunidade que lhes foi dada e o convite que lhes foi feito, etc, etc, etc. Como isso soa muito ao dia do meu casamento, não irei dizer nada disso. Aliás, nem sequer faço a mínima ideia da razão pela qual fui convidado. Ainda por cima sem receber nada. – diz-me a minha mulher, quando depois do jantar, lhe dei como desculpa que tinha que ir escrever isto, e por isso não a podia ajudar a arrumar a cozinha (não será possível isto deixar de ser quinzenal e passar a diário?).

O objectivo destas minhas crónicas é óbvio, safar-me o mais que puder da minha parte das tarefas domésticas, mas para além disso, tentar dar alguma dignidade à instituição que é o casamento: o sagrado matrimónio, a união pura entre duas pessoas que se amam e que decidiram partilhar o resto da sua vida um com o outro, e outras tretas que o padre disse, e que eu só ouvi quando vi o vídeo (na altura, estava mais interessado em olhar para o belo decote com que a minha mulher me presenteou nesse dia).

O facto da igreja levar tão a sério o ritual do casamento, e tentar por diversos meios condenar o seu término, sempre foi algo que a mim, ateu confesso, me fez impressão, mas bastou uma semana a viver em conjunto com a minha mulher para se fazer luz. Os padres não sabem o que é ter constantemente, uma mulher a gritar-lhe: qual é o sitio correcto para pôr a roupa suja; que afinal para lavar loiça deve-se usar detergente; que o papel higiénico não se renova automaticamente por artes mágicas (coisa que estranhamente sempre aconteceu e acontece na casa da minha mãe); que o sexo já não pode ser quando sentimos vontade, mas sim quando nos portamos bem (ou seja, quando passamos a mijar sentados, para não nos esquecermos de levantar e baixar o tampo da sanita). A única coisa que os padres têm que aturar das mulheres são as suas confissões, aquele blá blá blá constante. Infelizmente a minha mulher não é muito praticante, pelo que sou eu que tenho que apanhar todas as suas confissões e certificar-me que não me esqueço de ir abanando a cabeça enquanto penso no que aconteceu ao belo decote que ela tinha no dia em que nos casámos.

Bom, relendo o que escrevi, parece existir aqui algum contra-senso: Eu não estou arrependido de me ter casado. Já me encontro casado há mais de dez anos com a mesma mulher (o que faz de mim um bicho estranho perante grande parte da sociedade actual, principalmente quando assumo que gosto). Sempre que existe alguma mágoa sobre isso (quando por exemplo a minha sogra nos vem visitar por mais do que dois dias) penso sempre no dinheiro que ganhámos quando casámos, e se tal não resultar, pergunto à minha sogra, quantos quilos já ganhou desde a última vez em que nos vimos.

Encaro esta minha vida de casado como se de uma experiência se tratasse, e é essa minha experiência que irei tentar aqui transmitir, para que através dos meus amplos conhecimentos, mais homens aprendam a forma correcta de lidar com uma mulher: o momento certo para enrugar a testa quando elas nos falam de roupa; o esgar não demasiado intenso quando falam do preço das compras do supermercado; o ligeiro sorriso que devemos fazer quando nos perguntam se gostámos da comida que fizeram (e não a gargalhada sarcástica que tive a infelicidade de dar, da primeira vez que esta questão me foi colocada); etc.. Ou seja, se correr bem, irei tentar vender isto a uma editora e passar o resto da minha vida a dar seminários sobre como manter uma relação com uma mulher e gostar, sem se achar masoquista.

Os homens modernos têm que entender que as mulheres mudaram demasiado. Deixaram de considerar a cozinha como um território interdito aos homens e passaram a olhar para toda a casa dessa forma. A casa, para a qual todos os meses vemos descontar do nosso ordenado quantias que nos fazem chorar, não é nossa, é da nossa mulher. Nós somos apenas alguém que elas toleram. Nós homens, por outro lado, toleramos tudo isto convencidos que elas nos vão continuar a fornecer a razão pela qual nos casámos: Sexo. Mas mesmo em relação ao sexo, as coisas mudaram, o sexo agora é usado pelas mulheres, como arma. “Não arrumaste? Sofá.” “Não me ouviste? Sofá.” “Olhaste para a vizinha? Sofá.” O sofá é aliás, uma peça imprescindível na casa de qualquer casal moderno, por isso eis o meu primeiro, e talvez o mais importante conselho que deixo para todos os homens que se casaram ou juntaram recentemente, assim como para todos aqueles que o estão a pensar fazer em breve: Não poupem dinheiro na compra de um sofá-cama, escolham um com colchão ortopédico, confortável, que seja de fácil montagem e desmontagem, cujos lençóis não fiquem à mostra quando está em modo de sofá. Peçam ao vendedor uma demonstração, experimentem a sensação, invistam num sofá-cama de qualidade, de preferência que seja topo de gama. Lembrem-se que será nele que irão passar muitas noites a pensarem “O que raio é que eu fiz desta vez?”

Relendo novamente tudo o que escrevi, começo seriamente a ter dúvidas se irei convencer alguém de que realmente o casamento não é assim tão mau como isso.






Luis Miguel Luz, 38 anos, casado e pai de uma filha com 5 anos. Um gajo porreiro, bonito (de acordo com os actuais padrões de beleza patrocinados pela Fast-Food) que gosta de ouvir, tolerante e que, acima de tudo, nunca se cansa de realizar a sua parte das tarefas domésticas.....Pois...

16 comments:

Lénia said...

Adorei!!! Brilhante... como sempre!

Nuno said...

Costumo ler o blog Vida de Casado, e adoro este texto também :)

Carla said...

COMO É QUE É POSSÍVEL ... LOL

Adoro o que escreve!

Parabéns!

Expimisa said...

Não te esqueças de que estás casado há mais de dez anos.
E da forma como falas sobre esses dez anos, não me parece que possam existir dúvidas sobre o santo matrimónio. O teu é abençoado.
Só por isso não é necessário convencer, mas fazer com que as pessoas acreditem que é possível!!!
Beijos

bjecas said...

Devias ter falado do sofá há mais tempo. O meu não vale nada.

Gostava de te ver sorrir a comer o fricassé da minha patroa...

Carla M. said...

mais uma crónica impecável...
eu não sou casada, mas acho que a forma como leva o seu casamento é bastante saudável (isto, se tudo o que "relata" forem, realmente, episódios da sua vida de casado!)
o humor é sempre bem vindo, ainda mais em relações que duram há bastante tempo!!
parabéns mais uma vez e continue as boas crónicas que deliciam todos os que as lêem,,
Carla M.

Jonas said...

Só tenho mesmo é pena que este Blog não esteja no SAPO :)

Mas a verdade, é que não importa o sítio.......o conteúdo, é,como sempre, brilhante :)

Mais um Blog, para o meu leitor de feeds de RSS

Brisa said...

Luis Miguel:

Soubeste que na Colômbia, uma quadrilha de bandidos está passando por greve de sexo por parte de suas mulheres que querem obrigá-los a largar o crime? Pois é...

Sobre a sogra, tu sabes qual é a distância melhor da sua casa para a casa dela? Aqui no Brasil costumam dizer que não tão longe que ela venha com a mala e não tão perto que ela venha de chinelos.

Gostei demais da crônica.

Sucesso!

Natalia said...

Voce continua genialo, como sempre...e pode escrever esse livro logo, pois serem a primeira a comprar aqui no Brasil, com certeza. Abraço

ciloca said...

Desde o primeiro dia em que te li que soube estar perante os primeiros passos da carreira de um escritor humorista e não me enganei, sei que este foi apenas um degrau dos vários que vais subir, sempre no caminho do sucesso.Fico á espera da públicação.
Continuatrei a visitar a tua página , a outra lá de casa. bjs

helena said...

E aqui encontro mais uma vez o que me faz rir com satisfação.
E como alguém disse uma vez: "Um homem não sabe o que é a verdadeira felicidade até estar casado. E depois é tarde de mais...".
Um abraço

Estrunfina said...

Ó cumpadri...kdo sai o livro???

Maya said...

MUITO ENGRACADO! Estarei aqui sempre esperando por mais risadas!

b. said...

Genial, absolutamente genial!

Um beijinho de uma fã incondicional, certamente e muito em breve serei uma em centenas!

Cristina said...

:) Costumo ler o blog vida de casado. Gosto muito do teu sentido de humor. Muito inteligente!

Carolina said...

O Deus meu... espero nao ser tao mazinha com o meu companheiro!! ;)
E refrescante todavia, ler como disse o "outro lado".
Bem, pelo menos eu e o meu companheiro temos a sorte de que as nossas maes nao nos ligam nenhuma :D
E pessoalmente eu nao o chateio nem ao meu filho de quando deixam o assento para cima...

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