
Como Nossos Pais – Foto de Hilo Paulo Frenkiel, meu pai, meu deus, aos 17 anos de idade em Cornélio Procópio, Paraná
Gentes minhas, cara gente, tanta gente! O Reação, por incrível possa parecer, está crescendo de verdade verdadeira. Na última quinzena conseguimos, por primeira vez, trazer cartunistas a vocês conforme o prometido desde a primeira edição da revista blogal (perceberam o trocadilho?).Além de um novo administrador publicitário, Vinícius Magalhães, que tem sido uma imensa ajuda ao ponto de eu me questionar como pude sem ele até agora, também contamos com Adriana Rezende, copydeskeando (consertando o que eu não tenho competência ortográfica/gramatical de consertar). Agora, temos a Liliane Corrêa, que em breve estreiará sua coluna de entrevistas com personalidades bacanas! Meu maninho, Yaniv Frenkiel, também entra em nosso time e mostrará seus quadrinhos, de idéia conjunta, a cada quinzena que nosso tempo permitir.
No editorial passado, desabafei meus sentimentos a respeito do assassinato de um menino que, como muitos outros meninos e meninas, encontrou sua morte à véspera, de modo brutal e desumano. Disse o que sentia, porque sei que a população, quando sente como massa, acaba projetando seus sentimentos massivamente. Quando nos frustramos com aspectos de nossas vidas pessoais, raramente podemos descontar em quem merece. Eu, por exemplo, não posso mandar meu chefinho querido tomar banho na soda quente, pois sei que se fizer isso, quem banhar-se-á na cáustica serei eu. Assim, chego em casa, e desconto no maninho, na maninha, ou antes mesmo de chegar em casa já encaro o três por quatro no trânsito, e sáio correndo acelerado. Projetar sentimentos negativos nas pessoas que não os merecem, também faz parte de nosso ciclo ‘natural’ de engolir sapos cotidianos.
No entanto, há uma onda de racismo que se abriu, acolhendo consigo a homofobia ainda freqüente, logo um ar que ostenta o ódio pelos mais fracos, ao invés (uma lógica substituição) do arrependimento por contribuir diretamente ao que se vê por aí. Isso sim é temeroso, e me preocupa profundamente.
Rui Martins me enviou um e-mail com uma resposta sua a outro leitor aflito, dizendo que uma das mais importantes soluções ao problema é o aumento de empregos. Concordo... Li em outros veículos que o problema é o superávit primário, o déficit no orçamento, os juros, a inflação, as multi-nacionais, a privatização, e muitos outros nomes dos quais pouco ou nada entendo. Entendo que, no fim da semana passada, assisti ao filme “John Lennon versus E.U.A” e voltei à conclusão que já tive no passado, desculpando minha ignorância em outros setores: Tudo o que importa é lograr a paz. Não só a paz no contexto de guerras civis ou nacionais, urbanas ou externas, mas a paz na sociedade, na qual cada indivíduo conta, sabe que conta, e sente-se portanto motivado a contar. O resto, com todo o respeito, parece ser resto.
Disse-me um rapaz de Barbados, duas vezes o meu tamanho, com quem sempre discuto e me exalto por termos ambos o mesmo comprimento de pavio, que todos os problemas da humanidade advém de baixa auto-estima. De minha parte, não acredito que seja apenas a baixa auto-estima, mas concordo que todos os nossos problemas derivem da mente humana, e não de quesitos externos e conceitos inventados. A antropologia, sociologia, ecologia e outras ‘ias’, não conseguiram, ainda, explicar a essência do indivíduo. A psicologia se acerca, e a filosofia cria possibilidades, mas estas até hoje apenas nos remetem a procurar novos conceitos, novas invenções, para ilustrar o que circula dentro de nós. O importante é que sabemos que somos melhores do que o que estamos acostumados a ver por aí. Somos melhores do que o caos que se amontoa inconstante, do que a escuridão que impomos aos nossos filhos e aos nossos netos quando contribuímos intrepidamente à poluição ambiental.
Com meu camarada concordei que a essência do ser é seu maior problema, seu maior obstáculo. É ignorando esta essência, esse mecanismo, que criamos nossas projeções e descontamos nossas raivas nas pessoas erradas. Através desta essência, procuramos satisfazer nossos desejos primitivos, e conseguimos dormir às noites mesmo pisoteando – ou ignorando, o que não difere muito – outras pessoas ao longo de nossos caminhos. Nossa tendência, em um mundo de absurdos comuns, e uma maioria imbecíl, é complicar o que há de mais simples, e simplificar o que é complicado. Logo, nos atrapalhamos nas ciências incontáveis, e acabamos criando, para variar, uma realidade hipócrita, que teme sua própria existência, e mente-se só. Desmente-se só... Morre antes mesmo de nascer...
É viável o contrário do contrário, quando a mensagem é positiva e plena ao invés de assustadora e complexa, como é a mensagem do filme de Lennon assistido no fim da semana passada. Todavia, alguém andou convencendo nossos jovens que crescer é se esquecer das utopias e ‘cair na real.’ Esse alguém andou conversando com Lula, que já desistiu da 'esquerda' por passar dos cinqüenta anos de idade, como se isso fosse motivo para se desistir de uma ideologia, seja ela qual for. Pobre da pessoa que conseguiu se convencer de que são falsas as utopias, e verdadeira a estupidez imunda que a humanidade hoje em dia ousa chamar de realidade. Se amadurecer significa entender os próprios limites, que ao menos entendam, a maioria de nossos maduros disfuncionais, quais são os seus. Que não se escondam do dever de seu livre arbítrio, e assim exemplifiquem mais jornadas moribundas e desesperadas.
Pobres das pessoas que pensam que a inocência reside em se desejar e pregar, simplesmente, a paz e a vida como símbolos máximos, igualmente a todas as pessoas de todas as raças e todos os credos e todos os sexos e orientações sexuais. Igualmente, até, a todos os animais de todas as espécies. Paz... Amor... Palavras cheias e tão vazias, ignoradas por uma civilização que ainda procura na morte a solução absoluta para os dilemas da vida. E tenho dito...
Aos abrax, espero que curtam as novas colunas, e se curtirem damos continuidade,
Roy Frenkiel
O Editor que nada edita
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