Wednesday, December 13, 2006

Index Setima Quinzena (11 a 26 Dez)

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1 – Pois então vem aí o terceiro mês do Reação, em épocas festivas! Vejam o que diz o editor (ou o que eu digo, mesmo), clicando aqui

2 – Acompanhem os Comentários da Quinzena, e colaborem, quem sabe na próxima o seu não aparece por aí?

3 – Luciano Piccazio, escritor do ArteFree, colabora aqui e critica as músicas natalinas. Clique aqui e acompanhe

4 - Para o Prof Toni, o Natal não é dos mais agradáveis... Veja porquê, clicando aqui

5 – Silvio Vasconcelos nos ilumina com mais uma de suas crônicas, Noite de Luz. Clique aqui para se deliciar e pensar

6 – Nossa nova amiga, diretamente de Portugal, Professorinha Silvia, apresenta sua nova coluna! Você não pode perder, clique aquí para saber mais

7 – Roberto de Queiróz nos ilumina com um retrospecto do relacionamento entre a fé e o cinema, em sua coluna CLAQUE-TE. Leia mais, clicando aquí

8 – Nana de Freitas e mais uma deliciosa coluna para o Reação. Preciso dizer mais? O que está esperando, clique aquí!

9 – As memórias de Jens arrepiam sua coluna, e arrepiarão você também, se clicar aquí

10 – André di Bernardi volta ao Reação. Leia a poesia di Bernardi, clicando aquí

11 – Halém de Souza com mais uma coluna, a falar de Rubem Fonseca e a violência literária, no bom sentido. Para ficar mais esperto com seus livros, clique aquí, e acompanhe O Povo e o Livro

12 – Deco reflete o amor, em Reflexos de Deco. Reflita com ele, clicando aquí

13 – Caiê, a dona da Gata Preta, se achega ao Reação e povoa com categoria nossa coluna Vênus Contra-Ataca. Não vale perder, então clique logo aqui

14 – João Vitor no Canto dos Versos. Aproveite enquanto puder, clicando aquí

15 – A Sacerdotisa nos dá a descomunal honra de sua presença. Saiba mais, clicando aqui


16 - Nuno Cardoso Também reage, mas por erro exclusivamente meu, só o apresento hoje. Nuno Cardoso, diretamente de Portugal, um pai coruja e orgulhoso. Leiam o Papai (mudamos a pedidos do gajo) Cardoso, nova coluna, clicando aqui

E é isso aí, até a próx!

Monday, December 11, 2006

Papai Cardoso

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MEMÓRIAS (BEM) VIVAS
Por Nuno Cardoso

O facto de ter tido um segundo filho tem vindo a proporcionar uma experiência bem curiosa, mas ao mesmo tempo com o seu “quê” de doloroso.
Este pensamento vem-me à ideia quando vejo o meu filho mais novo a viver as suas primeiras aventuras no campo da “comida-que-não-se-pode-considerar-sólida-nem-líquida-mas-que-é-algo-mais-que-somente-leite-materno”.

E é engraçado, como de repente, dou por mim a pensar:
“Mas será que com a pequena também passámos por isto?”
A resposta, obviamente, só pode ser sim.

Pelo que descubro, com um misto de espanto e de algum horror, que o processo de aprendizagem porque os bebés passam para começarem a comer “comida-de-colher”, foi algo que eu enterrei no mais profundo e obscuro recanto do meu cérebro que comanda o “orgulho de pai”.

É que não há orgulho que aguente: ver o miúdo a comer (?) faz-me pensar como é que foi possível a nossa espécie ter sido capaz de sobreviver a milhares de anos de evolução?
No Reino Animal todos os filhotes se deleitam com qualquer migalhita que os pais lhe dêem. Mas nós não… rejeitamos uma, duas, três vezes ou mais o que nos é levado em mão pela colher.
Cada colher tem que ser insistentemente oferecida para ser aceite.

E ele, alegremente, com um sorriso trocista, põe-a fora enquanto nos olha de forma desafiadora…

Colher com papa lá dentro, um sorrizito e aí está: papa alegremente a escorrer pelo queixo abaixo!
Depois há coisas muito mais interessantes a concorrer com a comida para entrar na boca: no top estão as mãos.

Desde que o cachopo nasceu, uma das frases que ele mais ouve é: “Ai tão giro, tão lindo!”.
Ele deve ter decidido tirar a prova, para ver se era mesmo assim tão bom como todos lhe diziam, e toca de enfiar as mãos na boca como se não houvesse amanhã.
Eu julgo que ele deve ser mesmo bom, porque é tremendamente difícil convencê-lo a trocar a mão pela papa.

A haver banda sonora que acompanhe esta fase da vida dele só pode ser aquela música dos Xutos & Pontapés “Eu cá sou bom, sou muito bom, eu cá sou bom, sou muito bom, tou sempre a abrir…”

Convencê-lo a trocar as mãos pela papa é de tal forma difícil que estou convicto que ele vive atormentado com a resolução da seguinte equação: é a minha boca que é imensamente pequena, ou são as minhas mãos imensamente grandes?

O processo de alimentação em si é também um desafio à ciência: o rapaz deve estar convencido que é possível absorver papa pela pele.
É que só dessa maneira consigo explicar a irresistível tentação que o pequeno tem para pôr papa no nariz, nas bochechas, nas orelhas, sei lá mais onde…

E depois o final: aquela cara parece um campo de batalha onde formigas trabalhadoras já fizeram as suas trincheiras. Ou então alguém mais distraído quase podia afirmar que aquele bebé tinha acabado de disputar uma partida de paint-ball. Outra hipótese é a possibilidade de alguma experiência de um novo produto de cosmética que correu mal…

Bolas, não é fácil manter um orgulho paternal intocado quando nos deparamos com este espectáculo diário!



Nuno Cardoso,

31 anos de idade,

Pai de dois filhos, uma menina com 2 anos e 4 meses e um menino com 4 meses.
Alguém que se esforça por ter um projecto de vida muito bem definido para os filhos: incutir-lhes princípios para que possam ser Felizes!... O que, evidentemente, não quer dizer que eles não me dêem cabo da cabeça! Que dão… oh lá se dão!

Editorial Setima Quinzena (11 a 26 de Dezembro)

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FELIZ NATAL! HANUKA SAMEACH! Um bom Kwanza procês tamém, e mais o que vier pelo fronte (ou pela frente?). Por falar nisso, cadê meu presente? Ah, está na Zine do Pirata, uma foto dos futuros hóspedes de Pinochet dando as boas vindas. Bom presente esse, não é mesmo?

O Reação não falará de Pinochet, só o editor que não edita, mas reage. Aliás, nem falará de Hugo Chavez, que já começou a puxar Jesus da cova, novamente. Ah, mas até eu, que sou da mesma tribo que Jesus, mas não torço pro mesmo time, fico meio lesado perante determinadas coisinhas e coisonas. Acredito que, sem a presença do filósofo Vinícius por problemas técnicos, não falaremos nem de Lula... E olha que eu já pedi a uma série de escritores da ‘oposição’ a colaborar, mas são poucos os que se empenham (brincadeira, gente, eu lá entendo umas certas mancadas que eu cometi, também). Pois então, eis o Reação Cultural cursando seu terceiro mês, mais de sete mil visitantes e uma média que caiu pela ausência de linques campeões, mas cresceu por nossa própria publicidade e união entre escritores, profissionais, blogando ou não em outros sítios pela imensa blogoesfera internacional. Além do terceiro mês, chegamos também àquela época depressiva (ou alegre?), miraculosa (ou decadente?) e mágica (ou macumba?), a época dos feriados acumulados, a época do décimo terceiro salário (às vezes tão fictício quanto as renas de Papai Noel), época de perdão e solidariedade, de paz e amor e esperança e... Peraí, mas fora o Pinochet, cadê meu presente, agora falando sério.

Não pensem que meus escritores se referem pejorativamente a Jesus Cristo, na minha raça chamado apenas pelo primeiro nome, mas que para a religião mais influente da civilização selvagem ocidental, considera-se uma deidade. Nem mesmo eu me atrevo a falar mal de uma pessoa exemplar, um lider, certamente construído pela mente humana, ao qual milagres foram atribuídos, mas provavelmente não sem motivo, já que Jesus entrou para a história como um verdadeiro mensageiro de uma paz utópica. Não falo mal de pessoas da paz, ou idéias pacíficas. Nem os escritores reacionários do Reação Cultural se atreveriam.

Não falarei mal, tampouco, dos mitos de Hanuká, em parte históricos, em parte tão fictícios quanto algumas anedotas natalinas. Nem sei absolutamente nada sobre Kwanza, ou as tradições que envolvem o feriado Africano (Africano?), assim que, sobre o Kwanza tampouco se falará. Falaremos sobre o quê, então?

Falaremos sobre meu presente, escolham o feriado, mas comprem, me dêem regalos, livros, cd’s, camisetas, camisinhas, aceito qualquer negócio. E o presente de vocês, dos seus amigos, da sua família, dos seus chefes, dos seus colegas, dos seus funcionários, dos seus, dos seus, dos seus... Aliás, é bom vocês saberem que tem gente atrás dos montes colaborando com o Reação (aleluia!) finalmente, e que provavelmente usarão a palavra ‘prenda’ para falar de presentes. Além de falar das prendas, temos também o cinema, a música, o amor e a poesia em espírito natalino, prontos para o fim do ano, que se aproxima e alguma coisa deve significar. Não falo mais, porque o Index e as colunas dizem tudo. Benvindos a mais um mês do Reação, que tenham todos e todas excelentes festas, e que realmente algo da paz, do amor, da solidariedade, da caridade, da justiça e do perdão se concretize pronto e breve na vida de cada um e uma. Olhos à massa,

Aos abrax,

Roy Frenkiel O editor que não edita

Comentários da Quinzena

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(Valeu Velho Moita! – Index)

Insensatez

Se amor é insensatez
ou doença contumaz
é dívida sem liquidez
que o devedor só refaz.
A vacina é ineficaz não se cria robustez.
O coração é incapaz
de resistir outra vez.
Se o amor, não sei quem fez;
desamar, não sei quem faz.

Moita (que mandou também a do Renato Caldas, a seguir)

Fulô do Mato

Sá dona, vossa mercê
é a fulô mais chêrosa,
a fulô mais perfumosa
que meu sertão já botô.

E pode juntar um cardume
de tudo que for prefume,
de tudo que for fulô
que nenhuma, nenhuma só
tem o cheirinho do suó
que seu corpinho suô

É o cheiro da madrugada,
fartum de areia moiáda
que o orváio enchombriô.
É um cheiro bom, deferente
que a gente sentindo, sente:
das outras coisa, o fedô

RENATO CALDAS
________________________________

(Lilian Lôbo, no Canto de Nana)
Adorei todos os seus contos! Menina,você ainda vai looonge! BRILHOU!
________________________________



(R., Dr e Luísa, em ordem de aparição, no Toque do Toque, Gerdulli entrevistando Os Beselhos)

“Ouçam!!! Muito bom, vale a pena. Mesmo. Obrigado Beselhos!”

”Valeu pelo espaço, muito bacana.”

“Estes guris são umas figuras! : D”
______________________________

(Nana de Freitas, na Coluna do Jens)

Ótima estória, Jens. Aqui em Belo Horizonte, penso no lobisomen normalmente uma vez por mês, quando volto do trabalho, dirigindo na madrugada. Subindo a Avenida Nossa Senhora do Carmo, que vai dar na 040, que, por sua vez, leva ao Rio de Janeiro, a visão da lua cheia é tão atordoante que, às vezes, torço pela existência de tal criatura. Assim sendo, pelo menos, compensaria em parte os milhares de humanos que vivem a noite alheios àquele espetáculo. Alguém, afinal, deveria prestar à lua cheia um tributo de grandeza equivalente, não acha? Ainda que fosse em se transformando em algo que não fosse humano... Por outro lado, quantos de nós não se transformam, vez ou outra, independentemente da lua que vai no céu, não é verdade? rsUm abraço.

ArteFree Colabora Aqui!

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Músicas natalinas



Chegou o natal, época dos comerciantes faturarem e de muitos tirarem férias. Época dos discursos inflamados sobre espíritos natalinos, do décimo terceiro, décimo quarto, décimo quinto...

Para a música, é sempre um bom período. As festas pipocam para todos os lados, o tal espírito natalino floresce nos bolsos dos homens de negócios que, para impressionar, liberam a verba.

Floresce também, nas mãos compositoras dos músicos, músicas natalinas. E é exatamente aí que mora o perigo.

Quem agüenta ouvir Jingle Bells? Ou então "Happy Xmas", do John Lennon? São músicas que ficam armazenadas num potinho enferrujado no porão de uma casa velha, e que são tiradas todo o natal, invariavelmente.

Não sei quanto a vocês, mas essas músicas me deixam num mal humor danado, bem longe do tão almejado "espírito natalino". A pior coisa do natal é ouvir aquela versão da música do John Lennon em português. É para se jogar da ponte.

Aí os artistas se reúnem. Vestem-se todos de branco, seja natal, seja ano novo. Falam de paz, amor e esperança como se fossem palavras mágicas, que por si só resolverão o problema do mundo. É particularmente risível: "Desejo a todos paz, amor e esperança e um beijo bem quentinho no coração". Ok, então. Mas... o que você está fazendo para isso?

Não, cantar na Globo não é um bom jeito de atingir a paz mundial.

Realmente o natal traz coisas boas. O tal espírito natalino, por exemplo. Não é ótimo ver as pessoas se ajudando sem esperar receber nada em troca, mas simplesmente sendo movidas por um sentimento maior? Mesmo que só por alguns dias, é ótimo. Agora entram aquelas musiquinhas horríveis e o que acontece??? A pasteurização do natal!!!!! É paz e esperança pra cá, paz e esperança pra lá! E ninguém até agora parou para pensar seriamente nestas palavras. To começando a ficar enjoado delas.

Então uma dica, neste natal dê cds de música instrumental, qualquer que seja. Pra turma parar de se pasteurizar com o cd do Michael Jackson cantando um mundo mais bonito (uóóóó). Uma boa dica é Bolling Suíte For Flute, ou qualquer um do Jeff Beck. Só farei um pedido: peloamordeDeus, quebrem os cds de musiquinhas de natal!!!!

Luciano Piccazio Ornelas
blog Arte Free: http://artefree.blogspot.com/

Prof Toni

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O natal é um saco!


Povo, esse papo de natal enche o saco!
Festa brega, repleta de hipocrisia e "xaropadas".
A começar pelo famoso amigo secreto na empresa. Melhor seria se chamado de "inimigo declarado".

Depois vem uma melancolia danada, pois não é que o tal de natal é sempre pertinho da virada do ano, ou seja, mais uma convenção para que nos lembremos de que estamos envelhecendo rapidamente e que nossos sonhos ficaram para trás.
Sinceramente: deprimente!

Ainda mais por não ter coragem de romper com isso. É um tal de peregrinar por casa de mãe, sogra, irmã, etc. e tal.
Tentei contar para o meu filho que esse safado do Papai Noel é uma invenção burguesa, que serve ao desejo contínuo de lucro do capitalismo, mas fui censurado pela minha mulher. Ela afirmou que uma criança próxima dos 7 anos não tem como entender isso. Discordo, mas em nome da paz "natalina" calei-me.

E aquela história ridícula de renas naquele trenó asqueroso? Parece a torcida do São Paulo indo pro Morumbi guiada pelos seus mascotes! Melhor seriam jumentos, mais próximos de nossa realidade financeira, histórica e cultural.
Em janeiro vou levá-lo para um passeio na Praça da Sé, para conhecer um pouco da vida dos moradores de rua e depois a um assentamento do MST.

Aliás, minha mulher me proibiu de usar expressões como "concentração fundiária", "renda diferencial da terra", "camponês", "latifundiário", “distribuição de renda”... Com a mesma lengalenga de que uma criança com 7 anos não consegue compreender tais conceitos.
Mais uma vez cedi.
Dessa maneira não conseguirei educar meu filho como um verdadeiro revolucionário.

Uma providência que nunca esqueço neste período do ano é tirar a barba. Em razão do meu perfil roliço a presença da barba apresenta alguns inconvenientes, como ter que ser fotografado com crianças no colo por onde passo. Ainda perguntam pela roupa vermelha.

O natal é um saco mesmo!

Licenciado em Geografia pela Universidade de São Paulo. Docente desde 1993, é professor do CPV Vestibulares desde 2004. É autor do Material Didático de Atualidades para as turmas de Pré-Vestibular do CPV. Foi consultor do Portal Klickeducação.Atuou junto ao Núcleo de Educação de Adultos da Faculdade de Educação da USP, elaborando material didático para os professores, lecionando para o Grupo de Alfabetização Solidária e prestando assessoria para Prefeituras e ONGs.

Silvio Vasconcelos

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Noite de luz

Daqui de tua lixeira, onde remexo teu lixo incógnito, vejo tua janela aberta, vejo tua família ao redor de uma mesa farta, vejo luzes, enfeites vermelhos e dourados, vejo uma árvore mágica que pisca sobre enormes caixas com laços enormes e brilhantes.

Daqui de tua lixeira, recolho o que te resta, procuro algo que termine o tormento da fome que agride meu corpo e daqueles que lá em casa me esperam de braços abertos e olhos profundos.

Daqui de tua lixeira, onde sou transparente e tu não me vês, vou partir nessa noite de paz, nessa noite feliz para alguns e quem sabe levar um bocado de tua alegria e compartilhar em minha mesa com o meio panetone que aqui encontrei.

E lá na barranca do rio, vou chamar o menino que por lá passa, sem pai e sem amor, perdido entre a cola que lhe disfarça a fome e o desejo contido de ser acolhido para levá-lo a minha casa, sentá-lo junto de nós e celebrarmos nosso Natal em família.
Não terei tantos enfeites nem luzes que lampejam cores brilhantes, mas dividirei meu jantar humilde, quem sabe um pedaço de carne com meu irmão perdido, junto com minha família amada e trarei para junto de nós o verdadeiro espírito dessa noite de luz.

Sílvio Vasconcellos, 44 anos, vive em Novo Hamburgo RS, Brasil e é administrador de empresas. Desde 2005 mantém dois blogs na Internet: Uni-verso In-verso e Contos & Encontros onde exprime sensações poéticas e textos que exploram os limites do ser humano, experimentando sentimentos em primeira pessoa ou descrevendo como um espião o desenrolar de seus personagens.

Professorinha Silvia

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Qual é o problema?

Li recentemente (no jornal o Público de dia 7 de Dezembro de 2006) um artigo sobre um estudo feito onde se acusa o sistema de ensino português de discriminar os seus alunos por turmas, anos e vias de ensino. Acusam de juntar os bons com os bons e os fracos com os fracos

Correndo o risco de não ser politicamente correcta eu pergunto: qual é o problema?
Todos sabemos que acontece e por que acontece. Todos sabemos que os alunos fracos atrasam uma turma pois não podemos avançar e deixar dois ou três alunos com mais dificuldades para trás. Seria injusto para eles. Mas não é também injusto para os alunos com mais facilidades que estão aptos para avançar mais rapidamente? Ou só há injustiça e prejuízos quando prejudicamos os mais fracos? Os alunos bons também merecem ser motivados com novas informações e matéria interessante e motivadora que lhes seja dada a um ritmo que coincida com o ritmo deles. Quantas vezes observamos na nossa sala de aula alunos que acabam os exercícios mais cedo que os outros e ficam o resto do tempo aborrecidos à espera que os colegas acabem ou se põem a falar com o colega do lado? Ou então vemos o colega do lado, mais fraco, resolver copiar tudo desse miúdo mais rápido acabando por não aprender nada nem usar a sua própria cabeça para resolver os exercícios? Os alunos bons acabam por desmotivar e achar que conseguem tudo sem estudar. Ou seja, acabam por deixar de estudar pois é tudo demasiado fácil e lento para eles.

Por que devemos atrasar uma geração de bons alunos e futuros grandes homens em nome do politicamente correcto?

Os alunos mais fracos devem ter uma turma que possa receber pedagogia diferenciada, programas adaptados, uma turma com menos alunos, com disciplinas de carácter mais prático ou virado para a vida activa, ou talvez, quem sabe, com programas totalmente diferentes, elaborados pelos próprios professores tendo em conta o meio sócio-cultural e características dos alunos. Por que não este tipo de "discriminação"? Não é necessariamente uma discriminação negativa. Não merecerão os alunos menos bons um ensino que lhes permita evoluir? Não merecerão igualmente os alunos bons um ensino que lhes permita evoluir? Por que devemos atrasar uma geração em nome do politicamente correcto?

Por que não seguir um sistema semelhante ao dos Estados Unidos da América? Por norma não sou muito fã do sistema americano, mas eles têm algo que talvez se possa adaptar ao nosso próprio sistema. Também eles têm um ensino que divide os alunos por classes. Em algumas classes os alunos têm Inglês avançado (Advance English) noutras têm Inglês Básico (Remedial English). É que além de haver alunos bons e maus, há também alunos que são bons em algumas disciplinas e menos a outras. Um aluno fraco a Inglês pode ser bom a Matemática. Por que não ter o Inglês Básico e a Matemática Avançada?

Afinal, chego à conclusão que o sistema de ensino Português deveria ser ainda mais "discriminatório" do que "é". Nem todos têm aptidão para ser bons a todas as disciplinas. A crítica ao nosso sistema de ensino tal como está não deve ser aplicada ao facto de separar os alunos bons dos maus, separar os que ficam retidos os que progridem sempre, devemos criticar o nosso sistema de ensino por achar que todos os alunos devem ser bons a tudo por igual nivelando sempre pelo mais baixo.

E por não sermos todos iguais chegou a altura de acabar com o politicamente correcto, temos que chamar as coisas pelos nomes e dizer verdades que ficaram por dizer durante anos por receio de ferir susceptibilidades.

Os melhores alunos devem ter uma turma ao ritmo deles e que satisfaça as suas expectativas assim como os alunos menos bons devem ter uma turma que siga o ritmo deles e que vá de encontro às suas expectativas. Quantas vezes nos perguntam nas aulas: "Para que quero eu o Inglês ou o Português???" O Inglês e o Português deve ter um programa que vá de encontro ao que os alunos desejam seguir no seu futuro. E tudo isto implica separação e "discriminação".

Nem todos temos o estofo, aptidão e facilidades de aprendizagem suficientes para sermos doutores, sejamos algo diferente e com todo o orgulho. O que necessitamos é de formação adequada para a nossa vocação. Formação essa que se perdeu com a uniformização do ensino, com a ideia errónea que todos os alunos são iguais. Quantos de nós não precisam de um bom electricista ou canalizador ou mesmo um carpinteiro? Onde estão eles? Há formação para as pessoas com essa vocação? Pessoas com uma formação adequada que realizem um trabalho adequado e especializado chegam a ganhar mais do que um médico, professor ou advogado! Onde está o desprestígio em estudar para ser canalizador, por exemplo?

Por isso volto a colocar a questão: qual é o problema da separação dos alunos?

Sílvia (aprofessorinha.blogspot.com) Formada como professora pela Universidade Católica Portuguesa que frequentou entre 1995 e 1998 quando foi para o 5º ano, ano de estágio pedagógico. No ano seguinte fez uma pós-graduação na Universidade do Porto. Já deu aulas do norte ao sul do país e também na Ilha da Madeira. Diz que sua melhor experiência de ensino foi na Madeira onde o ensino está bastante avançado e onde o respeito entre professores, alunos e governantes ainda existe. Tem, ao todo, 7 anos de serviço cheios de boas e más experiências mas, principalmente, 7 anos que, como diz Silvia: 'Me fizeram crescer como pessoa.'

CLAQUE-TE!

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O Cinema buscando seus fiéis nas platéias
Por Roberto de Queiroz

A indústria cinematográfica – e aqui se faz necessária uma maior abertura para o cinema americano – sempre teve fascínio pelos épicos religiosos. Filmes que retratam o evangelho de Cristo de mil maneiras distintas, baseados nas mais diferentes fontes (alguns considerados de teor bastante polêmico, chegando a ser rechaçados pela própria Igreja Católica e o Papa). Muitos Jesus Cristos foram delineados. Jeffrey Hunter em O Rei dos Reis (King of Kings, de Nicholas Ray, 1961) é considerado por muitos críticos como o melhor exemplo de interpretação do filho do criador. Agradam-me muito o Cristo de Robert Powell em Jesus de Nazaré (Jesus of Nazareth, de Franco Zefirelli, 1977) e o de Willem Dafoe em A Última Tentação de Cristo (The Last Temptation of Christ, de Martin Scorcese, 1988), este envolvido pela sedução de Maria Madalena. Maria Madalena, por sinal, muito bem escolhida pelo diretor Mel Gibson em seu A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, 2004), uma das produções mais polêmicas dos últimos anos. Como não atentar para a beleza da atriz italiana Monica Belluci?

Seguindo o gênero musical religioso, dois bons exemplos são Jesus Cristo Superstar (Jesus Christ Superstar, de Norman Jewison, 1973), baseado no musical de Andrew Lloyd Weber, um filme que ficará registrado na minha mente eternamente pelas belas canções e fotografia, e Godspell: A Esperança (Godspell, de David Greene, 1973), traçando um Jesus andarilho que busca numa grade metrópole pessoas comuns – um motorista de táxi, uma garçonete, etc – para evocar, através de canções, as parábolas do evangelho segundo são Mateus.

Há também aqueles casos em que a figura em questão a ser trabalhada não é o próprio cristo ou o velho testamento, nem algo do tipo, e sim um homem atormentado pela culpa e pela falta de fé. É exatamente isso o que acontece em Barrabás (Barabbas, de Richard Fleischer, 1962), interpretado magistralmente pelo sempre ótimo Anthony Quinn, no papel do homem que é libertado para que Jesus seja cruficicado, o que o remete a uma vida de penitências e lástimas, e também o brilhante O Manto Sagrado (The Robe, de Henry Koster, 1953), trazendo Richard Burton no papel de um soldado romano que tem a vida modificada quando põe as mãos no manto que cobriu Jesus no dia de sua crucificação.

Após décadas de adaptações e trabalhos excelentes na área, o cinema de cunho religioso deu um tempo e decidiu pesquisar outros temas, fuçar outras questões mais sociais (trazendo de carona uma geração composta de mestres como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese, entre outros, que encantaria uma legião de fãs).

Porém, como é difícil calar a boca de certos realizadores, o tema ressurgiu com força (principalmente após a incursão do ator/diretor Mel Gibson), gerando um novo filão. Entre essas novas produções, vale destacar aqui duas que me impressionaram ou pelo capricho estético ou pelo conteúdo narrativo: Jesus – A História do Nascimento (The Nativity Story, de Catherine Hardwicke, 2006), belíssimo retrato do nascimento de Cristo, e O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism of Emily Rose, de Scott Derrickson, 2005), que trata de uma historia que chocou a igreja católica por conta de um caso de exorcismo mal realizado, levando à morte de uma adolescente nos EUA.

Enfim, para aqueles que achavam que religião e cinema era uma química do passado, estavam redondamente enganados. Os produtores hollywoodianos, europeus e até brasileiros (vide o sucesso de Maria: Mãe de Deus e Irmãos de Fé nos cinemas) estão mais interessados em caçar seus fiéis nas poltronas das salas de exibição do que nunca. Amém, sábios espectadores e bloguistas.

Carioca, 29 anos, morador da cidade maravilhosa,amante das mais inusitadas expressões artísticas (em particular da sétima arte), do qual me considero um confidente mordaz.

Canto de Nana

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Noite feliz
Por Nana de Freitas

(Foto: Vida Simples, clique aqui)

No lado de trás do carro, Pedrinho se divertia observando as lojas e fachadas decoradas para o Natal. Ao contrário dos pais, Amanda e Ricardo, que se irritavam com a demora provocada pelo engarrafamento sob a chuva fina e constante de dezembro, para o menino era melhor mesmo que demorasse para atravessar a cidade.
Assim, com a noite chegando ao trânsito parado, daria para ver também as luzes, que enchiam os olhos do garoto.

Quando se cansaram de reclamar e xingar – o trânsito, a companhia de tráfego, os motoristas dos carros mais próximos, o prefeito, o governador e até São Pedro -, os adultos do carro resolveram fazer uso do tempo ocioso para programar a ceia da festividade.

- João e Carla não comem carne de porco, Ricardo. Tem de ter peru.

- Eles é que comam sem carne, Amanda. Não é possível que vamos ter de fazer um prato para cada pessoa. A família é grande, essas coisas acontecem.

- Mas eles são nossos convidados, amor. Não fica bem, né?

- Não fica bem é convidado reclamar da janta. Faça-me o favor!
Ainda com os olhos nos enfeites, mas com os ouvidos já bem atentos à conversa que se desenrolava no interior do veículo, Pedro, que já tinha sete anos e até uma formatura no currículo, sentiu que era hora de começar, ele também, a participar da organização da festa.

- Vocês ficam aí brigando por causa de comida. Isso é feio. O mais importante, ninguém lembra, que é cantar “Parabéns”. Queria ver se fosse no aniversário de vocês!

Amanda mal conteve a emoção. Ricardo, para não se desmanchar em frescuras, riu muito e tratou logo de concordar com o filho, puxando, obviamente, a brasa para a sua sardinha.

- É isso aí, filhão. O importante é celebrar a data, o aniversário. Os convidados que comam o que for servido.

- Ô, Pedrinho – emendou Amanda -! Que orgulho, meu filho! Fim de ano é tão corrido que a gente acaba mesmo esquecendo a razão do Natal...

- Então! Este ano vai ter “Parabéns”? Você promete?

- Claro, filho! Logo depois da oração a gente canta os parabéns. Combinado?

- Eba!!!!!

E assim ficou acertado que as famílias Castro e Barros, a partir daquele ano – e por intervenção de Pedrinho – resgataria o verdadeiro sentido do Natal.

A semana passou num piscar de olhos – como costumam passar todas entre o meio de novembro e o início de janeiro. Em clara desobediência matrimonial, Amanda assou também o peru, buscando contemplar as preferências alimentares de todos os convidados.

A parentalha começou a chegar por volta das 21h. Astolfo, o tio glutão, era o primeiro, sempre. Gostava de chegar a tempo de acompanhar, ainda, os últimos preparos gastronômicos. Assim, tirava uma lasquinha aqui, outra ali, e driblava a fome que temia sentir até meia-noite. Vinha em carro próprio, antes da mulher e dos filhos, e sempre chegava reclamando por ter ido sozinho, na frente, pois o restante da família não tinha “compromisso com horário”.
Só Juliana, irmã de Amanda, se adiantava a Astolfo – que era da família de Ricardo. Isso porque ela não precisava chegar. Permanecia. Ainda que não morasse na casa, não era raro passar longas temporadas ali, maltratando a paciência do cunhado. Em dia de festa, no entanto, Ricardo era tomado de súbito carinho pela moça. Afinal, a presença dela na casa reduzia consideravelmente as tarefas que ele próprio teria de cumprir para que tudo saísse ao gosto da patroa.
Mário veio com Raquel – a estudante de artes cênicas que todo mundo queria conhecer. Mas Tereza também foi, com as crianças. Cumprimentou a todos, fulminou com um olhar a estudante e avisou que não ficaria para a ceia, pois também celebraria o Natal com o “novo namorado” (expressão pronunciada em volume ligeiramente mais elevado que o restante da frase).

Pedrinho recebia os convidados – de olho nos presentes. Julgava-se especialista na arte de adivinhar, pelo embrulho, o conteúdo. Para colher dados como peso, som, densidade projetada e afins, se oferecia prontamente para levá-los até a grande árvore que enfeitava a sala.

Quando todos, por fim, lá estavam, eram 27 adultos, 13 crianças, um peru, um pernil, uma travessa de arroz à grega, dois tipos de saladas, farofa comum, farofa de frutas e o famoso salpicão de Amanda.
À meia-noite, a família se reuniu para a prece, em torno da mesa. Astorlfo e outros três ou quatro concentrados na comida. Amanda e Juliana avaliando Raquel. As crianças, adivinhando os presentes. Logo depois do “amém” em coro, a anfitriã pediu a palavra.

- Queria dizer a todos que é um prazer recebê-los aqui em casa de novo, para o Natal. Temos muita sorte em ter uma família tão linda e abençoada. Mas, neste ano, foi Pedrinho quem nos chamou a atenção para o verdadeiro sentido de toda essa festa. Foi ele quem nos lembrou que nos reunimos, nesta data, para celebrar um aniversário muito especial...

Pedro mal podia acreditar. Com apenas sete anos, o discurso da mãe fazia dele o anfitrião, o mestre da noite. E ela prosseguiu:

- Por isso, prometemos a ele que, como em qualquer aniversário, cantaríamos juntos o “Parabéns”, como forma de lembrar a razão que nos une aqui...

Emocionada, foi a avó de Pedrinho quem puxou a cantoria. “Parabéns pra você...” E todos acompanharam, animados pelo vinho e pelo discurso. Repetiram a melodia, também como de praxe nos aniversários, enquanto viam Pedrinho subir na mesa, orgulhoso, para entoar a plenos pulmões, logo ao final da canção:

- Viva Papai Noel!!!!!!!!!!!

E as crianças:- Viva!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ________________________________________________________

Coluna do Jens

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Os homens e os seus velórios
Por Jens

“Conheci os homens e os seus velórios
Quando olhava da janela lateral
Do quarto de dormir”
(Janela Lateral, de Milton Nascimento e Fernando Brandt)

(Foto: ArteMaya, clique aqui)
Na memória que ficou da infância eram sempre ensolarados e coloridos aqueles feriados do Dia de Finados. Eram dias em que todas as coisas eram invariavelmente fustigadas por um vento teimoso e abusado que levantava a poeira das ruas, entrava nas casas e acentuava a melancolia das horas passadas em silêncio. (São os mortos passeando entre os vivos, asseveravam os mais antigos).
Era obrigatório o silêncio reverente em homenagem aos que se foram. As rádios só tocavam música clássica. A nós, então crianças, era recomendado moderação em respeito aos mortos. Brincadeiras, só os jogos de damas, ludo ou víspora – estando terminantemente proibida as explosões de alegria por uma eventual vitória. Em casa, por vezes, o silêncio era interrompido pelos soluços de saudade de alguém ainda não conformado com a ausência de um ente mais querido.

Morria-se muito, naquela época. Ou melhor, a impressão que tenho é que freqüentemente morria um familiar ou um conhecido. Em Ipanema todos se conheciam e quando de algum falecimento o comparecimento ao velório era uma obrigação social que mobilizava todo o bairro. Passava-se à noite velando o corpo, sempre em casa – as capelas mortuárias não existiam então. Os homens conversavam, tomavam café, comiam bolinhos, fumavam e alguns, os mais sensíveis, bebiam cachaça. As mulheres, trajando preto dos pés a cabeça, choravam, carpiam e faziam café e bolinhos para os homens.
Na hora de encomendar o corpo, padre Antônio surgia com suas vestes em preto, roxo e branco. Dizia algumas palavras em latim (como era bela e misteriosa a missa rezada em latim), fazia o sinal da cruz e comandava o Pai Nosso.

De minha parte ficava vivamente impressionado com o momento solene em que fechava-se o caixão – as mulheres se desesperavam, uivavam de dor, eram contidas à força na sua intenção ser enterradas junto com o morto. Os homens mais sensíveis, já bêbados, agarravam-se ao ataúde e teciam elogios desbragados ao companheiro ou amada que partia. No cemitério o ritual de dor se repetia, enquanto o coveiro fazia seu trabalho.
No Dia de Finados, além da missa das dez, outra tarefa obrigatória era a visita ao cemitério da Vila Nova. As ruas do bairro animavam-se, contrastando com a tristeza no interior dos lares. As pessoas iam e vinham. Todas conhecidas. “Já foste?” “Não, estou indo”. “Vou à tarde.” O cemitério era colorido. Os túmulos, os imponentes dos ricos e as covas simples dos pobres, eram ornamentados com flores e velas. Amigos se reencontravam. Relembravam. (A tradição era tão arraigada que minha irmã e meu cunhado, anos depois de terem se mudado para Florianópolis, nunca deixavam de vir a Porto Alegre no Feriado de Finados, para encontrar os amigos – vivos e mortos).
Os feriados de Finados, naqueles dias, tinham essa função: lembrar os que já se foram. Com reverência.

José Edi Nunes, o Jens

Poesia di Bernardi

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Mundo cão.
Rês desgarrada.
Cavalo coice.
Mundo míope.
Que mira e erra.
Que mia e morde.
Só mesmo amor?
Mundo cão.
Rês desgarrada.
Metade Faca.
A outra parte foice.
------------------------------
poesia
doa-se
a quem
doer
------------------------------
amanhece noite adentro
para raio de lua
boné de sol
--------------------------------
Nada disso pode
nos calar em laltos
100 espaços.
Orgânica,
as árvores desta vi(d)a
desmancham-se em crianças,
o mais alto ápice.
Apinhado delas,
redescubro trilhas
que levam ao cernedo sol
te sendo tudo.

Por Andre di Bernardi

O Povo e o Livro

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Antes do tiro: a violência espectral de Rubem Fonseca
Por Halem de Souza

(Foto: Sexual Violence, clique aqui)

Silviano Santiago observou que “Rubem Fonseca exibe a violência como o modelo de comportamento dominante na sociedade contemporânea”. E acrescenta: “quando a Sociologia, História e Psicanálise tornam-se disciplinas pusilânimes para analisar esse fato, a literatura se agiganta e se faz indispensável.”

Nenhum leitor de Fonseca tem a menor dificuldade em se aperceber da violência característica do autor de A Grande Arte. Ela já se manifestara no primeiro livro de contos (Os prisioneiros, 1963), começara a consolidar-se a partir do terceiro (Lúcia MacCartney, 1967), notadamente nos contos O caso de F. A. - com o famoso personagem Paulo Mendes/ Mandrake – Meu interlocutor e Relato de ocorrência, por exemplo. Mas é em Feliz Ano Novo (1975) que a ficção de Rubem Fonseca adotaria a violência como temática recorrente.

Seria bastante simples arrolar exemplos de episódios de brutalidade e selvageria em algumas narrativas do livro, nas quais esses elementos estão explícitos. Passeio noturno (Partes I e II), Botando pra quebrar, Dia dos Namorados (mais uma vez com o personagem Mandrake) e, obviamente, o conto que dá nome ao livro, possuem farto material ilustrativo do tratamento dado pelo autor à violência.

Mas, e nos contos em que a selvageria e a estupidificação, inerentes a todo ato violento, não estão imediatamente reconhecíveis, nem podem ser prontamente identificadas por vocabulário direto e sem subterfúgios? Em outras palavras, como Fonseca trata a violência antes de anunciar que houve um tiro, uma facada, um soco?

Em um conto de Feliz Ano Novo, a violência também lá está, mas de modo espectral, assombrando a narrativa, sem, contudo, ocupar o proscênio, guardando-se para o epílogo. E essa narrativa destaca-se por impor, como fratura ainda não exposta, a razão da imensa maioria dos atos brutos e violentos: as diferenças de renda ou, como prefiro dizer sem chorumelas, o dinheiro que uns (pouquíssimos) têm e outros (milhares) nunca viram (ou verão) sequer a cor.

O outro, conto pouco característico de Fonseca, porque flerta ligeiramente com o gênero fantástico, opõe dois personagens: um empresário rico e “um outro”, provavelmente um mendigo comum. O primeiro atende aos pedidos do segundo, assim caracterizado por aquele: “Era um homem branco, forte, de cabelos castanhos compridos.” Ao longo do conto os dois se encontram e os pedidos do mendigo vão ficando mais exigentes e ousados, intimidando o homem rico. É importante notar que, habilmente, Fonseca faz do empresário o narrador; isso significa que vemos apenas aquilo que ele deseja que saibamos. Exasperado pela insistência do pedinte, mata-o com um tiro e então percebe: “ele caiu no chão, então vi que era um menino franzino, de espinhas no rosto, e de uma palidez tão grande que nem mesmo o sangue, que foi cobrindo a sua face, conseguia esconder.”

Se há um remate moral para esse conto é o de que o abismo social entre classes transforma os detentores da renda cegos às necessidades dos outros setores da sociedade. Não à toa, ao invés de diminuírem suas margens de lucro, exigem a construção de mais cadeias, contratam seguranças, eletrificam seus muros. Aproximar-se do outro, pobre, sem oportunidade de educação, desocupado e desesperado, pra essa gente endinheirada, nem pensar.

P.S. Os contos aqui citados estão em FONSECA, Rubem. Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

Halem de Souza escreve o blogue Ração (Razão) das Letras, vale a pena conferir!

Reflexos de Deco

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GULA PERFEITA

(Foto: Aliciante, clique aqui)

Dizem que amar é o bastante. Incondicionalmente. Irradiantemente. Incansavelmente. Pode ser. Aliás, pode ser tudo, suficientemente tudo, se você levar uma vida ou ao menos se dispor a levar uma vida por conta da emoção. Sim, pode ser, se você for um adolescente despido de razão, se puder agir, pensar e viver exclusivamente para o amor. Do contrário, com muito pesar e as devidas desculpas, devo dizer: Amar não é o bastante.

Na real, antes de tudo, não é o bastante porque é impossível viver de amor. Amor não paga as contas, não compra comida, roupas, apartamento nem carro novo. Não é o bastante porque você não quer morar numa cabana no meio do nada e nem vender coco na praia para sobreviver. Isso é muito bonito, é muito emotivo e romântico, mas é pura utopia e utopias nessa altura da vida, passam longe da sua cabeça. Não é o bastante a partir do momento que você tem amigos e naturalmente, sente a falta deles. Não é o bastante porque mesmo amando você continua precisando de liberdade e de um tempo seu, seja para saltar de pára-quedas, jogar bola, baralho, sinuca, para beber, para não fazer nada ou para fazer qualquer outra coisa que te desligue do cotidiano por algumas horas. Não é o bastante porque você, como todo ser humano, tem extrema facilidade para se enjoar das coisas e na medida em que se fecha em uma única vertente, enjoar é semi-automático, mera questão de tempo.

Não é o bastante porque você quer mais... Você quer se casar com uma pessoa bacana, ter um casal de filhos pulando na sua cama pela manhã, ver sua empresa produzindo alto e ter aquele lugar bacanérrimo pra morar. É um sonho antigo, um sonho que você não vai abandonar. Um sonho que depende de você e de muito trabalho, dedicação e competência. Por isso você carrega sua empresa tatuada na pele e por ela trabalha como um louco, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Por isso, mesmo podendo, abre mão de festas e férias, viagens e cruzeiros que a maioria dos seus amigos está fazendo nesse momento. Por isso, ora ou outra, você está visivelmente cansado e sem a menor paciência e disposição para os programas que as pessoas querem que você faça. As pessoas não te entendem, mas você não se preocupa. Você concluiu que a vida não é tão efêmera como algumas pessoas pensam e nem tão longa como outras pessoas pensaram. Você tem um sentido, um objetivo, um caminho a seguir onde o amor é apenas um ingrediente, não a receita completa.

Você quer o amor, sabendo que não é o bastante, mas não quer um amor que sufoca, que prende, que cobra. Você já tem cobranças demais, pressões demais, gente demais enchendo sua cabeça com toda sorte de problemas. Você quer o amor como oxigênio, adoçando, aliviando o peso e o preço que você paga para ser quem você é. Você quer o amor para encostar a cabeça, para te fazer dar risadas e para ter um motivo mais que perfeito para voltar para casa ao fim de um dia. Você quer um amor, mas não quer um amor qualquer. Você quer ô Amor... Com menos ciúme e mais confiança, com menos conflitos e mais harmonia, sintonia e sabedoria. Você um amor leve, sadio, que respeite sua individualidade, que não se anule e que não tente te anular. Afinal, você não é mais um menino, já não carrega meias certezas, meias palavras e dúvidas inteiras. Você sabe o que você quer, vive o que você quer e com quem você quer. Isso sim é o bastante.

Fiquem bem e se cuidem...

Beijos,

Deco.



André Azzi Toledo - Original Veículos Ltda

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Vênus Contra-Ataca

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O ANIVERSÁRIO


Estamos perto do aniversário dele outra vez. Na verdade, no momento em que escrevo isto, ainda faltam umas semanas, mas - a avaliar pelo comportamento das pessoas - podia ser já amanhã. Já se vendem os bolos de Natal, há quem já tenha feito a árvore e o presépio, compram-se prendas e prendas e prendas (podia encher o resto da página com a palavra «prendas» que não fugia ao tão falado espírito natalício, não era?).

Uma vez, um padre católico explicou-me que estava provado que o homem Jesus tinha nascido em Março, mas que, por uma convenção eclesiástica, se tinha decidido celebrar o seu aniversário a 25 de Dezembro. Não acho mal. Muita gente nasceu num dia, foi registada noutro e celebra quando quer. Além disso, todos sabemos que as datas são convenções, e as tradições mais não fazem que assegurar à Humanidade a sua coesão. Com a continuidade de uma celebração, parece-nos que a nossa estabilidade continua, sentimo-nos mais seguros. Se, de repente, viesse agora um tipo dizer que o Natal era em Março, mandavamo-lo passear. Em Março, já temos a Primavera a despontar, obrigada. Não precisamos de um motivo extra de alegria. Tenho a certeza de que ele nunca pensou que isto chegaria tão longe… «Isto» é a celebração do seu aniversário, naturalmente. Há 2006 anos atrás, a pregar no Médio Oriente sobre a paz e o amor universais e a possibilidade de redenção divina e de recomeçar a vida (não importava a sujidade que se tivesse feito, aos olhos da Humanidade), aposto todo o meu sangue em como nunca pensou que milhares de anos depois – ena, tanto tempo ! - iam celebrá-lo com um circo de luzinhas, fitas e bolas, peditórios para se dar aos mais pobrezinhos em nome dele (um pobre que era Rei… ou um Rei que era pobre… algo assim, a metáfora funciona, mas não quando quem a diz tem a barriga demasiado cheia, como costuma ser o caso), e prendas e prendas.
Atenção! Eu não sou contra o facto de darmos prendas. Acho uma ideia muito bonita ter-se escolhido uma época no ano em que toda a gente dá uma prenda a alguém que lhe é mais querido. É uma maneira (entre tantas outras possíveis) de se dizer que se aprecia alguém. Mas, mais uma vez, levou-se a coisa longe demais e hoje são precisas variadíssimas prendas… Já ninguém se satisfaz com menos. Menos seria pouco. Menos seria depois ter de explicar à vizinha, aos amigos, no emprego que as coisas em nossa casa não andam bem… Que celebramos o aniversário dele com menos festa. Que, se calhar, nos apreciamos menos. Isto tudo, não sendo verdade (porque a alegria faz-se de risos e a estima não se faz de dádivas materiais) passou a ser, porque se convencionou assim. Destrói a mensagem inicial de redenção e amor universal - mas não faz mal, porque raramente nos lembramos dela; só serve de letra aos cânticos natalícios.
Outra coisa extraordinária são os enfeites da nossa celebração. Estamos atarefados a enfeitar a casa com neve artificial, com bonecos de neve, com a rena Rudolph, «the red-nosed reindeer» como diz a canção (!!!). Alguém, sinceramente, tem alguma memória infantil desta treta de rena americana? Fomos invadidos pela ideia do «White Christmas» e nem demos conta disso.
Há quatro anos atrás, o meu marido sugeriu-me que puséssemos um enfeite do Pai Natal a fazer surf. Eu disse que nem pensar, não era tradicional! «Para ti, não é, mas eu sou do Hemisfério Sul… Para mim, o Natal é na praia.» Foi a primeira vez que pensei que o S. Nicolau também podia ser surfista. E é, para metade do mundo – uma metade na qual nós, Hemisfério Norte com a mania de todo poderoso, nunca pensamos.
Uma metade, não… Porque os judeus, os muçulmanos, os hindus, os budistas, e outros não celebram o Natal. Não é «a celebração universal». É uma celebração cristã. É ou começou por ser…? Penso que ainda é. O que o aniversário dele tem de bonito é que as pessoas sentem uma predisposição para serem mais generosas com todos os outros, pelo menos uma vez no ano, não importa porquê; e só por isso vale a pena celebrá-lo. Só por isso valeu a pena nascer um menino.

PS- Não escrevo os pronomes ou possessivos referentes a Jesus com letra maiúscula, porque não vejo porque havia um homem tão humilde de querer que se elevasse o nome dele num texto dessa forma. Assim, peço desculpa das eventuais ofensas que isso possa causar à Igreja Cristã, seja ela Católica ou Protestante (com letra maiúscula, evidentemente).

Por Caiê

Aqui o nosso editor-mor da Reacção Cultural pediu-me para eu fazer o meu Perfil. Eu disse: "Claro que eu faço! Eu sou mulher-camaleão, adapto-me a tudo..." Mas depois pensei: "Ai, perfil, perfil... Não pode ser antes frente-a-frente?"

Canto dos Versos

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OS FABRICANTES DE MEMÓRIAS
Por Joao Vitor

Os fabricantes de memórias
são pessoas como eu era
pessoas que viviam do passado
e da lembrança.

Pessoas que eram
pessoas
rápidos instantes de ser

Eu não sou mais
um fabricante de memórias.
Sou um amante de momentos,
sou um destilador de sonhos
às vezes,
acho que nem sequer sou
quando lembro de você,
não me reconheço como "eu"
apenas como "nós”...

Como se não separasse,
como se não superasse,
como se não bastasse,
como se não fosse...

Como se fosse possível esquecer
eu:
Ex-fabricante de memórias
flagro-me,
pela primeira vez:
Sendo!

JV

A Sacerdotisa

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Eu trabalho...
Por Priscila Fatima

Trabalho na periferia de São Paulo, uma realidade crua e nua, sem apelativos visuais ou e sexuais, vivo numa bomba-relógio, cercada por favelas, pobreza e miséria cultural.

Me sinto cercada pela cultura da chamada “quebrada”, é assim que muitos alunos do colégio que estudo se referem ao bairro onde vivem.

É triste acompanhar de perto o desenvolvimento desses jovens, sem perspectivas, sem cultura, sem dinheiro, sem noção exata do que é ser cidadão.

Vivemos num bairro onde há muitos chefes de facções criminosas desta enorme cidade, estamos num canto qualquer da temida zona sul, onde há uma lei – A lei dos bandidos.

Há também uma certa ética, uma ética estranha e pouco visível mas ela existe e impera nas quebradas.

Falando culturalmente, o que ouvimos aqui e acolá é uma mistura de: rap, funk, pagode e forró, o bairro é cercado por botecos de onde se escutam os agudos da vocalista do Calipso, perto da minha casa toda sexta é dia de pagode, onde as bebidas, drogas e mulheres gostosas desfilando aparecem aos montes.

Dia desses em sala de aula questionei os alunos a cerca de uma música do Renato Russo, ao que fui compelida com um sonoro: Quem? Quem é esse “fessora”?

Triste? Deprimente? Talvez, mas é a realidade cultural da maioria dos jovens da periferia paulista, vivem à mercê da cultura branca, vivem nas periferias culturais, restritos aos Mc’s da vida. Cresceram cantando as desgraças das periferias, sem conhecer as belezas das músicas da MPB ou de outros estilos musicais. Continuarei meu trabalho, divulgarei doces e preciosas pérolas musicais e de quebra sairei à La Mc Priscila, parafraseando meu amigo rapper...

“ Vamos passear no parque
Deixa o menino
Fim de Semana no parque
Vou rezar pra esse domingo não chover.”


“Tô cansado dessa porra
de toda essa bobagem
Alcolismo, vingança treta malandragem

Mãe angustiada filho problemático
Famílias destruídas fins de semana trágicos
O sistema quer isso a molecada tem que aprender
Fim de semana no Parque Ipê.”
Racionais Mc´s

Priscila Fátima, a Sacerdotisa

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