REDENTOR
Por Nana de Freitas
Ele saltou o muro e caiu de qualquer jeito no quintal.
Ela fechou a torneira do tanque, pois pensou ter ouvido barulho.
Ele, de um salto, surgiu na frente dela.
- Quieta, calada. Se der um pio, morre.
Ela, sentindo no corpo as dores da surra de ontem, achou até gentil o bandido.
Ele, arma na mão, pediu pra ela entrar e chamar as crianças.
Ela, sem ligar para a arma, fez o que lhe pedia.
- Seu menino tem quantos anos? Cinco?
- Três só, mas ele é grande.
- E o outro?
- João Pedro tem sete. Fala bom dia pro moço, João!
- Bom dia, moço!
- Bom dia, moleque. Tem que estudar muito, viu? E cuidar sempre do seu irmão pequeno. A vida toda.

- Tá bom, moço.
Ele mandou trancar as portas e fechar as cortinas. Escondeu a arma para não assustar as crianças, mas manteve o tom firme na voz, enquanto tentava explicar o que ocorria.
- Fiz uma coisa muito feia e, agora, querem me pegar. Não teve jeito, pessoal. Tive de me esconder aqui. Não quero machucar vocês e peço até desculpas pelo mal jeito, pô. Mas neguinho tá querendo me esfolar.
- O que você fez? – perguntou o garoto mais velho.
- Nem vou te contar, mano. Teu sangue é bom, moleque. Vou estragar não. Segue no caminho do bem pra não passar nunca essa fita, mano. Tô te falando.
Menos de cinco minutos e a polícia chegava. Eram 11 da manhã. Cercaram a casa e avisaram ao bandido que era sair ou morrer.
- Avisa aos tiras que so sáio morto, mas levo mais três comigo – pediu a mulher.
Antes que ela chegasse à janela, emendou:
- É de mentira, hein, dona! Sacumé, ne? Mas fala grosso com eles, faz de conta que tá com medo de morrer mesmo, hein?
A mulher obedeceu. E funcionou. Baixou a bola dos PMs e a imprensa ainda pegou o finalzinho do recado. Mais um pouquinho e estavam la, na televisão.
- Mandou bem, dona!
- Rose, moço. Meu nome é Rose. E o pequeno, sem ser o João Pedro, é o Edilson, que nem aquele tal de capetinha, que jogou no Corinthians.
- Aê, moleque! Nome de craque! Prazer, dona Rose. Preocupa não. Vai ficar tudo bem. Meu nome eu não posso falar não, mas a senhora e os meninos podem me chamar de Cleiton. Sempre quis me chamar Cleiton...
A negociação começou ao meio-dia.
À 1h da tarde, Rose começou a preparar o almoço.
Comeram logo depois das 2h.
- Comida boa demais, dona Rose! Deus que abençoe as suas mãos de cozinheira.
- Amém, Cleiton. E não precisa me chamar de dona.
Às 4h, os meninos dormiram, um pouco por medo, outro tanto por tédio e barriga cheia mesmo. Foi quando um grito aterrorizou a refém.
- Rose? Tô aqui, viu? Eles já vão resolver.
No decorrer daquela mensagem, a vida passou inteira na cabeça dela. A infância pobre, o namoro quente, o casamento simples, os porres do marido, as agressões, ausências, xingamentos e ameaças.
- Cleiton, posso te pedir uma coisa?
- Já sei, dona, vou me entregar, antes que isso aqui complique.
- Não. Por favor. É o contrario. Eu e os meninos não queremos que você morra, mas se der pra enrolar um pouco, assim, ao menos atá amanhã cedo, vou te ficar muito agradecida.
No desespero da voz dela, ele teve sua redençao. Que fosse aquele, enfim, o seu legado.
Nao se tocaram por pouco, mas trocaram olhares intensos. Ele brincou com os garotos, lavou a louça três vezes e elogiou cada refeiçao que fez na casa. Ela se maquiou e se perfumou após cada banho.
Quatro dias de falsas ameaças e supostas negociações. Quatro dias de paz na periferia de Campinas. Quatro dias. A fuga com reféns mais longa na história da polícia de São Paulo.
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